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No dia 10 maio de 1975, a redação do Notícias Populares estava calma demais. Faltavam notícias para encher as páginas com os tradicionais absurdos que o saudoso diário publicava pra deixar o povo um pouco mais feliz. Fuçaram nas matérias rejeitadas da semana e acharam uma de Marco Antonio Montadon, sobre uma criança que havia nascido com estranhas deformidades no ABC paulista.
No local, o jornalista apurou que a criança nascera com um prolongamento no cóccix e duas saliências na testa, problemas simples que foram resolvidos com uma pequena cirurgia feita na própria maternidade. A matéria, de tão fraca nem foi publicada. Na falta de assunto daquele dia, o repórter requentou a pauta e resolveu fazer uma crônica de horror baseada na história. Como ninguém no hospital quis dar entrevistas, ele não pensou duas vezes antes de inventar a história que ficou conhecida como a mais bizarra do jornalismo brasileiro, que marcou uma época e alavancou a venda do jornal por quase 30 dias seguidos.
Reproduzo abaixo a sensacional seqüência de manchetes até o desfecho da maior e mais divertida cascata do Notícias Populares. Em seguida, emendo a matéria original que deu origem a saga. (Destaque para a manchete de 24.05: O BEBE DIABO PAROU TAXI NA AVENIDA em que, segundo o jornal, o capetinha entrou no carro e ao ser questionado pelo taxista sobre qual seria o destino da corrida teria emendado: “Toca para o inferno”)

11/5 – NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO
12/5 – BEBÊ-DIABO DESAPARECE
13/5 – FEITICEIRO IRÁ AO ABC EXPULSAR O BEBÊ-DIABO
14/5 – BEBÊ-DIABO DO ABC PESA 5 QUILOS
15/5 – BEBÊ-DIABO INFERNIZA O PADRE DO ABC
16/5 – NÓS VIMOS O BEBÊ-DIABO
17/5 – POVO VAI VER O BEBÊ-DIABO
18/5 – PROCISSÃO EXPULSARÁ BEBÊ-DIABO
19/5 – VIU BEBÊ-DIABO E FICOU LOUCA
20/5 – SANTO PREVIU O BEBÊ-DIABO
21/5 – BEBÊ-DIABO NOS TELHADOS DAS CASAS DO ABC
22/5 – MÉDICO AFIRMA: O BEBÊ-DIABO NASCEU NO ABC
23/5 – DIABO EXPLODE MUNDO EM 1981
24/5 – BEBÊ-DIABO PAROU TÁXI NA AVENIDA
25/5 – FAZENDEIRO É O PAI DO BEBÊ-DIABO
26/5 – BEBÊ-DIABO VIAJA PARA VER O PAI
27/5 – BEBÊ-DIABO APARECE NO LUGAR DO ECLIPSE
28/5 – MAIS 7 VIRAM O BEBÊ-DIABO
29/5 – BISPO MORRE DE MEDO DO BEBÊ-DIABO
30/5 – BEBÊ-DIABO ARRASA COM RITUAL DE UMBANDISTA
31/5 – FANÁTICOS AMEAÇAM BEBÊ-DIABO DO ABC
01/6 – SEQÜESTRADO BEBÊ-DIABO
02/6 – BEBÊ-DIABO À MORTE
03/6 – BEBÊ-DIABO FOGE PARA O NORDESTE
04/6 – PADRE DE MARÍLIA: ‘EU ACREDITO NO BEBÊ-DIABO DO ABC’
05/6 – ZÉ DO CAIXÃO VAI CAÇAR BEBÊ-DIABO NO NORDESTE
08/6 – POVO VÊ DE NOVO BEBÊ-DIABO DO ABC

NASCEU O DIABO EM SAO PAULO

Durante um parto incrivelmente fantástico e cheio de mistérios, correria e pânico por parte de enfermeiros e médicos, uma senhora deu a luz num hospital de São Bernardo do Campo, a uma estranha criatura, com aparência sobrenaturais, que tem todas as características do Diabo, em carne e osso. O bebêzinho, que já nasceu falando e ameaçou sua mãe de morte, tem o corpo totalmente cheio de pelos, dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo de aproximadamente cinco centimetros, além do olhar feroz, que causa medo e arrepios. Parece que tudo começou na Semana Santa, quando o marido da mulher, que é muito religioso, convidou-a para ir à igreja, ver a procissão. A mulher grávida, bateu com as mãos na barriga e respondeu indignada:
– Não vou, enquanto este diabo aqui não nascer.
E foi o que realmente aconteceu. A mulher acabou tendo como filho um monstrinho horripilante, peludo, que ao falar, mais parece que está mugindo.
Inicialmente, há quinze dias, quando os boatos começaram a surgir, poucos acreditavam na história absurda do nascimento do capeta em São Paulo, mas pouco a pouco, os comentários aumentaram e agora, principalmente em São Bernardo do Campo e cidades do ABC, ninguém mais duvida da existência do monstrinho diabólico.
Entretanto, segundo as autoridades médicas, não foi registrado nas últimas semanas nenhum nascimento de alguma criança com problemas congênitos ou anomalias pavorosas. Mesmo assim, até telefonemas de Brasília e outras cidades, estão chegando em São Bernardo, de pessoas que perguntam como o Diabo é, o que que ele come e como é sua aparência,
tudo logicamente, desmentido pelos funcionários.
O Hospital São Bernardo, onde se acredita que o Diabo esteja escondido, encontra-se em fase de construção, sendo que a maioria de seus pacientes, é do INPS.
O médico Fausto Figueira Mello Júnior, que ao lado de 12 colegas o dirige, afirmou que dos 15 partos diários, todos são praticamente normais: – Aqui não nasceu nenhum diabinho.
Por outro lado, o diretor administrativo, Roberto Saad, é de opinião que tudo isto não passa de uma piada de mal gosto contra o hospital. Parece porém que, o crescimento do boato e a credulidade de algumas pessoas chegaram a preocupar o secretário da Promoção Social, Enzo Ferrari. Ele, após percorrer todos os hospitais daquela cidade, distribuiu uma nota oficial, desmentindo o boato, dizendo que em São Bernardo do Campo não existe nenhum bebê-monstro.
Entretanto, a própria preocupação do secretário aumentou em algumas pessoas a crença de que o Diabo existe e está disposto a fazer cumprir as profecias satânicas, aumentando o mal na Terra.
– E os primeiros a serem atingidos serão os moradores de São Bernardo do Campo, disse uma senhora, fazendo o Padre-Nosso, defronte o Hospital São Bernardo, onde se encontrava com os olhos demonstrando
muito medo.
Assim, aquela que de início era uma estranha e absurda história, agora tomou corpo e chega a preocupar as autoridades daquele município.
Os telefonemas continuam, nas esquinas e nos bares o assunto é só sobre o capetinha e muitos insistem que os responsáveis pelo hospital onde ele nasceu, deveriam colocá-lo em exposição, para que todos vissem o bebê que fala, tem chifres e um bonito rabo de cinco centímetros.

O ano era 1986 e o lendário José Luis da Conceição, um dos principais fotógrafos do extinto jornal Notícias Populares.
Numa tarde calma na redação, chegou por telefone a notícia de que em Itaquera, três porquinhos haviam nascido com feições humanas. Isso era um prato cheio para o jornal, que vendia feito água quando publicava esse tipo de bizarrice.
Zé Miguel, um dos motoristas mais antigos da empresa foi designado para leva-lo até lá. Estava eufórico pois estreava seu carro novo, um Passat 86, último tipo, ainda com os bancos forrados de plástico, que segundo ele de tão possante chegaria até no inferno, caso fosse preciso.
Em Itaquera, uma íngreme rua esburacada de terra levou-os até a casa, onde uma multidão se acotovelava na porta tentando ver os suínos com cara de gente. Zé Miguel gabou-se ao perceber a facilidade com que o carrão subiu aquela ladeira.
Conceição desembarcou e entrou na casa perguntando pelos porcos. Foi recebido pelo dono, um homem alto, sujo de terra, sem camisa, vestindo um bermuda apertada e com uma enorme barriga flácida saltando para fora, que contou que os porquinhos haviam sido mortos pela mãe.
Alegando que o mundo precisava conhecer aquela história triste, Conceição gentilmente convenceu o dono do chiqueiro a segurar os porcos mortos na mão para que ele os fotografasse. O dono orgulhoso, obedeceu e levantou-os, dois na mão esquerda e um na mão direita deixando seu rosto entre os três porquinhos mortos.
Enquanto fotografava, Conceição ouviu um grito vindo do corredor:”Esse filho-da-puta vai por no jornal que meu tio é o pai dos porcos” disse o sobrinho do dono do chiqueiro enquanto corria para cima do fotógrafo com um facão enferrujado na mão.
Antes de fugir, só deu tempo do Conceição perceber que realmente o dono era muito parecido com os porquinhos e que aquilo daria uma manchete incrível para o Notícias Populares do dia seguinte.
A correria foi geral. A multidão na porta da casa gritava de “lincha!” e “vai morrer!” enquanto dava tapas e chutes no fotografo.
Quando finalmente chegou perto do carro, Conceição viu o Zé Miguel desesperado, vendo a multidão tentar virar de cabeça para baixo seu Passat 0km, que havia saído naquela manhã da concessionária. O fotógrafo entrou no carro clicando enquanto choviam pedras e pedaços de pau no capô e nos vidros do carro deixando-o completamente destruído.
No dia seguinte, a capa do NP pendurada em todas as bancas contando a saga dos porquinhos com cara de gente arrancava sorrisos dos que passavam pela rua, mas o Zé Miguel, que não tinha seguro do Passat, nunca mais perdoou o Conceição.

O saudosismo bateu forte hoje cedo. É domingo, li os jornais “sérios” e senti uma saudade fudida do Notícias Populares, onde trabalhei por um curto e delicioso período.
Seria impensável hoje em dia imaginar um editor-chefe submetendo a manchete do dia à aprovação dos contínuos, uma reunião de pauta em que jornalistas resolvem inventar a cascata do nascimento de um bebê com chifres e rabo ou que decidam fotografar uma mulher nua num frigorífico para falar sobre o aumento do preço da carne.
As manchetes do NP eram geniais. Pérolas como “Bicha põe rosquinha no seguro”, “Aumento de merda na poupança”, “Broxa torra o pênis na tomada” e “A morte não usa calcinha” semeavam diariamente o imaginário popular.
Pequenas aglomerações se formavam ao redor das primeiras páginas penduradas nas bancas do centro e sorrisos eram naturalmente arrancados de quem as lia. Ninguém passava batido a uma capa do NP.
O clima na redação era da mais pura diversão e na reunião de pauta as idéias mais absurdas eram sugeridas com a naturalidade de quem toma um copo de água. Quanto mais surreal melhor.
Num dos cantos a TV estava sempre ligada e todo mundo parava o que fosse quando começava o programa do Chaves. As gargalhadas eram ouvidas de longe enquanto putas e travestis que eram fotografadas nuas numa salinha anexa circulavam com suas micro-saias entre as mesas dos repórteres.
O fechamento era às 23:00h e a partir de então a redação começava a se esvaziar. O ultimo que saia desligava a TV e o barulho diminuía até atingir o silêncio total. Depois da meia-noite, quando tudo se acalmava, o velho repórter Hélio Santos abria a porta com a pele clara de quem não conhece o dia e seus cabelos brancos encrespados. Chegava para fazer o que fazia há trinta anos: mergulhar na madrugada violenta de São Paulo em busca de homicídios, chacinas, latrocínios ou qualquer outra história bizarra dessas que acontecem naturalmente por aqui.
Seus companheiros de ronda eram o fotógrafo José Maria da Silva e o motorista Zé Carlos. Juntos formavam um trio que via coisas tão absurdas que achavam melhor nem comentar. Ninguém acreditaria mesmo.
Encontrei num caderno velho anotações que fiz em uma das noites que saí com o Hélio para a ronda, cobrindo férias do Zé Maria. Reproduzo aqui alguns trechos:
“Saímos da redação à meia-noite já com a informação de que havia um morto no Jardim Santa Lúcia, zona sul da cidade, corpo no local. Uma pequena viagem nos leva até uma viela sem movimento onde avista-se apenas um bar, uma luz e um corpo no chão. Mais de perto uma viatura da PM guarda o cadáver enquanto o IML não chega. Helio se identifica ao policial com a frieza de quem faz isso a anos e entrega uma edição recém impressa do jornal do dia seguinte como um passaporte para começar a trabalhar.
Pedi autorização para fotografar, tirei o pano que cobria o corpo e comecei a clicar.
A cena é assustadora. O sangue escorria pela boca, e por trás da cabeça. O rosto estava levemente desfigurado em decorrência dos tiros na cara.
O nome da vítima é Laércio Dias da Silva, tem 28 anos e é caminhoneiro. A dona do bar diz que não viu nada. Havia se agachado para pegar uma cerveja no freezer e quando se levantou o rapaz já estava morto. Olho para o Hélio e fingimos acreditar. Ninguém nunca vê nada. É o parágrafo primeiro da lei da favela.
Um freguês do bar chegou já bêbado e ignorou o morto. Saltou sobre o cadáver, encostou no balcão e pediu uma dose de pinga exatamente como fazia todos os dias. O PM fez de conta que não viu e a dona do bar o serviu. O show tem que continuar.
O celular do Hélio tocou mais uma vez. Do outro lado da linha um policial informa nova ocorrência. Dois homens baleados, um deles ainda está vivo. Foi socorrido e levado ao PS em estado grave. O outro morreu na hora, corpo no local. A região, para variar é a zona sul, o bairro é o Jardim Santa Cruz e a página do guia de ruas que usamos para nos localizar é a mesma do primeiro homicídio da noite. Rotina macabra.
Chegamos em minutos. O procedimento é o mesmo, as perguntas também. A vítima era um guarda noturno. Na gíria policial eles são conhecidos como “pirriú” por causa do apito que assopram a noite inteira. O nome dele é Pedro Lourenço dos Santos, 48 anos e foi assassinado quando voltava do velório de um colega que havia morrido na terça-feira anterior.
O IML não costuma chegar muito cedo. Dez ou doze horas de atraso são consideradas normais na periferia. O morto está caído em frente a uma escola municipal e provavelmente amanhã, quando as crianças chegarem para estudar o cadáver ainda estará lá. O pior é que elas não se assustarão. É apenas mais um morto, elas já viram vários, não será o último, a vida segue.
Trabalho feito, vamos embora direto para o bar Estadão, tomar café e comer sanduíche de pernil antes de voltar pra casa.
Essa foi uma noite comum para o experiente repórter Helio Santos. Não aconteceu nada além do previsto, nada fora do normal”.
Naquele dia pessoas morreram na periferia de São Paulo exatamente como morrem todos os dias.
Na manhã seguinte, além das cascatas, bizarrices e matérias bem humoradas, o NP estava nas bancas noticiando as mortes de Laércio e Pedro.
Na periferia de São Paulo, até hoje as pessoas continuam morrendo da mesma maneira. O jornal acusado de banalizar a violência deixou de existir em 2001 e a violência hoje é tão banal, que nem sai mais no jornal.


(texto de 2008)

Hoje ao abrir o jornal me deparei com a noticia da morte do Comandante Raul Reyes, segundo homem na hierarquia das FARC, em um bombardeio aéreo na selva equatoriana. Conheci Reyes em 2003, numa viagem para o sul da Colômbia a convite das FARC ao lado do repórter Fabiano Maisonnave, que eu não conhecia até então, mas que viria a se tornar um grande parceiro de roubadas pela América Latina.
Pegamos o avião em Cumbica sem saber muito o que nos aguardava. O destino era Quito no Equador (minha cidade favorita na AL) e as instruções passadas por membros da guerrilha que viviam clandestinos no Brasil eram simples e claras: Desembarquem, sigam para o hotel Libertad na calle 7 de Septiembre que alguém da guerrilha vai procura-los.
O contato logo foi feito. Uma mulher com cerca de 40 anos e o sugestivo nome de Esperança veio ao nosso encontro e passou novas instruções. Ela nos entregou duas passagens de ônibus para uma cidade na fronteira do Equador com a Colômbia. Disse que durante a viagem seriamos seguidos de perto mas só saberíamos quem nos acompanhava no momento oportuno.
No dia seguinte lá estávamos nós, sentados em um ônibus caindo aos pedaços e lotado de gente, bicho e sacolas de todos os tipos. Haviam pessoas em pé no corredor e logo uma índia velha sentou-se no braço da minha poltrona e jogou parte do seu peso (que não era pouco) sobre meu ombro direito. Ofereci o lugar a ela, que recusou. A viagem durou cerca de 22 horas. Numa das paradas, um homem com a barba por fazer, bigode preto e uma peruca loira, muito parecido fisicamente com o palhaço Tiririca entrou no ônibus e sacou da bolsa um pote de maionese com uma Tênia Solitarium no formol. Dizia que cada um dentro daquele ônibus poderia ter uma dessas em seu estômago e que a única solução para ficar livre daquele mal seria tomar uma das pílulas milagrosas que ele vendia. Além de te livrar da tênia, segundo ele, a pílula curava câncer e Aids. O incrível foi que ele vendeu várias. Até eu comprei uma.
A região da fronteira entre o Equador e a Colômbia é tensa. O sul da Colômbia é dominado pelas FARC e há um acordo velado entre guerrilheiros e governo equatoriano. A principal porta de entrada de pessoas, alimentos e armas para a Colômbia era o norte do Equador. As FARC não atravessam para o lado Equatoriano e o governo fazia vista grossa para o transito da guerrilha. Nesse corredor estávamos nós e a cada blitz do exército Equatoriano, fazíamos de conta que éramos turistas indo para um lugar onde não havia turismo e os militares faziam de conta que acreditavam. Grupos paramilitares de direita andavam barbarizando naquela área. Dias antes haviam parado um ônibus e matado todos os maiores de 14 anos. Os jornais colombianos puseram a chacina na conta das FARC.
Cinco blitze depois, chegamos ao ponto final de nossa viagem na beira do Rio Putumayo, que dividia os dois países.
Descemos do ônibus e uma menina de 16 anos que se apresentou como Sophia nos abordou. Para nossa surpresa, a única pessoa de quem não desconfiávamos era o nosso contato. Saímos dali com ela e caminhamos pela cidade até um ponto em que uma lancha nos aguardava.
Entramos clandestinos na Colômbia atravessando o Putumayo e na outra margem do rio dois guerrilheiros já nos aguardavam.
Vestiam calça camuflada, botas e camiseta branca. Não carregavam fuzis, apenas uma pistola cada. Subiram no barco e andamos por cerca de duas horas até uma cidade chamada Pinuña Negra onde paramos para almoçar.
Ganhamos botas de borracha e uma capa de chuva. Fui até um bar e pedi uma coca para surpresa da atendente. Depois fui descobrir que aquela cidade era uma das principais portas de saída da cocaína produzida no sul colombiano e corrigi a gafe dizendo que queria uma coca-cola.
Nas vielas de terra da cidadezinha, sempre o mesmo tipo de música ecoava. Eram os narco-corridos, tipo de funk proibidão local, em ritmo de cumbia, que exaltava os grandes generais da droga locais.
Seguimos viagem em um outro barco, bem menor, uma voadeira com um motor de 15hp. Entramos num igarapé muito raso e o barco atolava em raízes e bancos de terra. A cada atolada descíamos e carregávamos o barco nas costas.
No final do dia paramos para dormir na casa de um cocaleiro, no meio da selva. Podre como eu estava, dormi um sono profundo, mesmo estando ao lado de dois guerrilheiros armados. Nem o ronco do dono da casa foi capaz de atrapalhar meu sono.
No dia seguinte pela manhã continuamos e algumas horas depois algo alem de macacos se moveu na mata. Eram cerca de 5 guerrilheiros, vestindo roupas camufladas fuzis AK-47 e pistolas. Nos receberam muito bem e se disseram preocupados com nosso atraso. Caminhamos pela mata até o acampamento e um belo almoço nos esperava. Sentamos em uma mesa feita com troncos de árvore e nos foi servida uma carne de porco do mato, caçado por eles. Comemos e bebemos ao lado do grupo dos guerrilheiros. No final do almoço, surgiu na nossa frente a figura do comandante Raul Reyes acompanhado de mais dez guerrilheiros. Baixinho, gorducho e de barba e cabelos brancos parecia um Papai Noel fardado. Trazia seu AK-47 a tiracolo e duas pistolas na cintura. Extremamente simpático e sorridente, posou para fotos e conversou bastante conosco. Contou histórias da vida na selva, falou de política e da luta pela liberdade. Desconversava sempre quando o assunto eram drogas.
As FARC (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) surgiram na década de 60 como um movimento popular de esquerda liderado por Manuel “Tirofijo” Marlunda, que lutava contra os desmandos de uma elite que se perpetuava no poder e relegava aos camponeses uma condição de vida sub-humana. Com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, a guerrilha perdeu seu financiador e se aliou aos traficantes e produtores de cocaína para poder manter sua luta política, perdendo sua legitimidade e ganhando a antipatia total dos EUA, principais consumidores da droga produzida por ali.
Enquanto o Fabiano entrevistava o comandante, sentei com um grupo de guerrilheiros. Eles pediram pra ver minha câmera e em troca pedi para manusear o fuzil. Expliquei o funcionamento da câmera e eles do fuzil. Disseram que os fuzis russos AK-47 eram muito melhores que os AR-15 americanos. Perguntei porque e me contaram uma história que explicava a diferença entre americanos e russos. Disseram que os americanos gastaram milhões para inventar uma caneta esferográfica que pudesse ser usada no espaço, enquanto os russos não gastaram nada e levaram um lápis. O AK-47 é mais simples, disse um deles sobre o fuzil que segundo a lenda atira até embaixo d’agua.
Pedi para ficar mais alguns dias mas o comandante não autorizou. Insisti e fui até um pouco chato, mas sem perder a elegância Reyes deixou claro que não seria possível. Nao se deve abusar de alguém com um fuzil pendurado no pescoço.
No final do dia nos despedimos do grupo. Voltamos ao barco e fizemos o caminho de volta. Paramos na mesma casa para dormir e seguir viagem no outro dia. Desta vez menos cansados, conversamos bastante com os guerrilheiros, que estavam bem mais a vontade. Eles cantaram as musicas da guerrilha, falaram da rotina na floresta e o porque de estarem ali. Mostrei um CD dos Racionais que trazia no meu discman. Eles gostaram da musica e dei a eles de presente.
Na manhã seguinte assim que o sol apareceu seguimos viagem. Na hora da partida, um dos filhos do dono da casa em que dormimos colocou o CD dos Racionais para tocar. O barco foi saindo enquanto a musica Vida Loka II quebrava o silencio da selva amazônica colombiana.

ASFIXIA



O trânsito é o sangue que circula nas veias da metrópole. Sem sua circulação, as entregas, encontros e correrias não alcançam o destino. A cidade vai sendo asfixiada. É a morte via sistema circulatório, a crônica da tragédia paulistana anunciada. Com 700 carros sendo jogados nas ruas todos os dias pelas montadoras, todo mundo sabe que um dia São Paulo vai parar. Taxistas, motoristas de ônibus, caminhoneiros, policiais e todos os que se fodem todo dia sobre o asfalto quente da cidade tem consciência de que mais cedo ou mais tarde isso vai acontecer.
Fico imaginando como vai ser esse dia.
Vai ser uma sexta-feira a tarde, vai estar calor e uma tempestade daquelas de janeiro vai precipitar o desastre. Carros e motos vão entupir todos os buracos possíveis travando de vez a maior cidade da América Latina. Com os carros parados, só os motoboys vão andar, desviando seus joelhos dos retrovisores e com o dedo nas buzinas agudas que cada um toca de um jeito diferente. Depois de um tempo, nem eles serão capazes. É a cidade morrendo aos poucos.
A indústria faz a parte dela e aumenta a produção de veículos novos mesmo sabendo que eles são nocivos. Quando a cidade morrer de vez elas se mudam para a outra; são multinacionais.
Políticos só pensam em si e já deixaram isso claro. Liberam a indústria para fazer o que quiser. Tentam estar sempre próximos do dinheiro que elas pagam de imposto e dos financiamentos de campanha. Tem medo da queda da taxa de emprego caso elas desacelerem a produção e a consequente perda de votos que isso pode acarretar. Por conta disso todo mundo se fode.
Enquanto isso, os carros que o governo libera e indústria automobilística constrói seguem entupindo as ruas como a gordura da picanha entope as artérias do coração.


Aquela noite do dia 10 de novembro parecia ser o fim de mais uma terça feira normal na maior cidade do hemisfério.
Alguns ainda voltavam do trabalho enquanto outros se divertiam em happy hours nas mesas de bar da metrópole que nunca pára. O assunto ainda era o vestido da Geyse Uniban e todo mundo tinha certeza que o Palmeiras ia ser campeão brasileiro. Nas maternidades novos habitantes da super populosa São Paulo nasciam sob o signo de escorpião. Na TV, sob o olhar atento de milhões de pessoas, a novela das oito mostrava a personagem Luciana aflita sem conseguir se mexer devido a tetraplegia imposta por Manoel Carlos quando subitamente… Ficou tudo escuro.
Parecia uma falta de energia comum mas não era. Quem tinha o twitter no celular logo percebeu que o Brasil inteiro estava sem luz. Telefonemas para parentes ou amigos que moram longe confirmaram que o país havia ficado no escuro. Aquela que parecia uma noite normal estava entrando para a história. Setenta milhões de pessoas em dezoito estados ficaram completamente no escuro e o país esteve a beira de um colapso.
Os sinais de trânsito pararam de funcionar e o caos tomou conta das ruas. Pessoas ficaram presas em elevadores, delegacias não tinham mais como registrar ocorrências, ninguém mais conseguia se locomover, os telefones aos poucos foram entrando em pane, as baterias acabando, as informações se desencontrando e muita gente entrou em parafuso. Uma grávida deu a luz sem luz, iluminada apenas pelo visor dos celulares dos médicos e enfermeiros. Os faróis dos carros engarrafados eram as únicas fontes de iluminação pública que a cidade dispunha.
Os taxis que ainda circulavam eram disputados a tapa. O breu tomava conta da cidade enquanto no Vale do Anhangabaú a festa de uma marca de energético era um dos poucos lugares com energia graças a enormes geradores alugados.
Fora da ilha da fantasia, a cidade estava parada e caótica. A tensão que faltava nas tomadas era visível no rosto das pessoas que tentavam voltar pra casa em meio ao caos.
De uma hora para outra os donos do bio diesel e do pré-sal, aqueles que cagam regra no mundo inteiro sobre suas fontes de energia alternativa se igualaram a Nigéria, Uganda e outros tantos países africanos. Nos dias seguintes ao apagão o governo tentou mas não conseguiu dar uma resposta convivncente para a sociedade. Até hoje ninguém sabe o que realmente ocorreu.
O dia 10 de novembro de 2009 serviu para percebermos como somos frágeis e dependentes da energia elétrica. Sem eletricidade não há comunicação, armazenamento de comida, transporte, água na torneira e nem segurança.
Mas o pior de tudo, o que deixou as pessoas mais emputecidas, foi que a Globo se recusou a exibir novamante no dia seguinte o capitulo de “Viver a Vida” que foi interrompido pelo apagão…

CIDADE CINZA


Acordei muito cedo de uma noite mal dormida naquela quinta feira. Eram cinco e meia da manhã e meu corpo ainda sofria da ressaca de cinco viagens consecutivas em quinze dias. O Papa Bento XVI está na cidade e para o jornal que trabalho essa é a pauta mais importante do ano. Estou credenciado para fotografar o encontro do alemão com o presidente Lula e o governador José Serra no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista nesta manhã.
O esquema de segurança é exagerado. São mais de dez mil homens pra garantir a segurança de um só. Policia Civil, Policia Militar, Policia Federal, Guarda Civil Metropolitana, Policia do Exército, ABIN e mais um monte de caras de terno preto e fone de ouvido circulando pela casa entre Q.A.Ps e Q.R.Us.
Se o Papa, que é teoricamente o cara mais próximo de Deus na terra precisa de tanta segurança, isso significa que os pecadores como nós estão mesmo fudidos por aqui.
Pensei em todos os crimes absurdos que a policia brasileira cometeu desde sua fundação, e tentei em vão calcular entre os dez mil, o numero de policiais bandidos que hoje fazem a “segurança” papal. Os mesmos que sábado espancavam e jogavam bombas sobre famílias inteiras no show dos Racionais na Sé hoje sorriem e até assustam de tão educados. Em seguida lembrei de todos os crimes que a igreja católica também cometeu desde a sua fundação, da inquisição, suas fogueiras e guerras santas. Relaxei e percebi que estava tudo em família.
Mas essa segurança espalhafatosa não tem nada de perfeita. Peguei minha credencial no Anhembi, onde fica o Media Center Papal as seis da manhã, que era o horário combinado, e fui para a fila do ônibus que levaria todos os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas para o local do encontro. Todas as bolsas e equipamentos passaram por uma máquina de Raio-X móvel instalada em um furgão, mas nenhum dos cerca de cento e cinqüenta jornalistas que entrou naqueles ônibus foi revistado ou passou por detector de metais. Estava frio e eu vestia um casaco preto bem largo. Embaixo dele eu poderia estar carregando pistolas, granadas, explosivos, facas, espadas, zarabatanas, estilingues ou qualquer outro tipo de arma que se pode levar junto ao corpo num dia frio.
Fomos posicionados em um palanque a cerca de dois metros e meio de um tapete vermelho onde o Papa passaria. Havia gente do mundo inteiro, fotógrafos e cinegrafistas de veículos grandes, mas também de jornais ou agencias desconhecidas. Qualquer um daqueles cento e cinqüenta poderia estar armado. Qualquer um deles poderia matar o Papa, o presidente ou o governador. Eu também.
Peguei um lugar bom, bem na frente, o mais perto possível do tapete vermelho. Estava tão perto de onde o alemão passaria, que troquei a tele-objetiva (aquela lente comprida que vai buscar o assunto lá longe) por uma grande angular (lente bem aberta). Sentei no chão, câmera na mão, e esperei com calma a chegada do pontífice.
Três helicópteros do exército voando baixo avisavam que Bento estava na área. “The Pope is in the house” diria o MC se houvesse um conduzindo a festa.
Parecia um filme. Ao lado do presidente e do governador, o Papa desceu do mercedes-benz cinza blindado e passou de peito aberto a cerca de dois metros e meio de um monte de caras que não foram revistados. Parou e posou para fotos acenando a mão. Passou tão perto de mim que pude até sentir o cheiro de enxofre que ele exalava.
Se eu quisesse e soubesse atirar, daria tempo de mirar com calma e dar um pipoco preciso bem na testa do pontífice. Se eu tivesse uma granada então, não precisava nem saber atirar. Matava numa tacada só o Papa, o Lula e de brinde ainda mandava pro céu o Serra e um monte de caras de terno preto que estavam perto. Com tanto meganha em volta, confesso que se eu matasse os caras não escaparia nem fudendo, mas entrava pra história direto, sem escalas.
O Papa Bento XVI foi embora bem vivo, apesar daquela cara de morto, e eu fiquei ali parado, impressionado com a imprudência da policia paulista. No dia seguinte a cobertura continuou e a máquina de Raio X que a Policia Civil de São Paulo mantinha no Anhembi parou de funcionar. A partir de então nem as mochilas das equipes de TV e jornais eram mais revistadas.
Fiquei pensando em como seria fácil matar o Papa se eu quisesse. A sorte de Bento XVI é que eu nunca quis entrar pra história.





(TEXTO DE 2007)
É periferia de Belém, mas poderia ser de qualquer lugar do país. Toda periferia é parecida mesmo. Choveu a tarde, como chove todo dia no Pará e a lama se espalhou pelo chão do clube Ipanema, em Ananindeua. Domingo a noite é dia de baile Tecnobrega, febre popular paraense em que milhares de pessoas se juntam para dançar música brega/eletrônica em volta das “aparelhagens”, que são toneladas de equipamento de som, luz e imagem que urram em volume ensurdecedor frases mixadas como: “Quem vai querer a minha periquita?”, “Hoje é dia de adultério”, “Quem ta solteira levante a mãozinha”, “Cadê o corno? Tá em casa” e daí pra baixo.
Os Djs são as estrelas da noite. Do alto de cabines “high tech”, cheias de botões, luzes e fumaça, comandam a festa soltando gritos de guerra e recados entre músicas brega com batida tecno que levam ao êxtase as milhares de pessoas que se acotovelam sobre poças de água e latas de cerveja jogadas no chão.
Atrás do Dj, um enorme painel de LED, oito TVs de plasma e cinco telões projetam imagens psicodélicas trazendo para aquele fundão do Pará um clima de Blade Runner caboclo.
As letras de duplo sentido atiçam a sexualidade dos presentes. O cheiro de perfume de rosas das meninas se mistura com o de suor dos homens sem camisa que dançam em ritmo alucinante uma mistura de carimbó com lambada.
A cerveja é servida em baldes. Ambulantes circulam pela multidão equilibrando sobre a cabeça baldes com gelo e latinhas vendidas a preços honestos.
Todas as letras, por mais absurdas, são cantadas sem erros por quase todo o público que enquanto dança faz com as mãos o sinal do “S”, símbolo do Popsom, que é o nome da equipe que comanda a festa de hoje.
Existem várias “aparelhagens” em Belém. As principais são Popsom e Tupinambá, que disputam palmo a palmo o titulo de “a mais popular” tentando levar cada vez mais gente às festas.
A guerra entre eles é acirrada. Para atrair mais público, DJs trazem músicas exclusivas e se esforçam para tocar tudo cada vez mais alto. Para o público tecnobrega muitas vezes vale mais a potência do que a música em si.
Nos fundos do baile, há uma enorme parede de caixas de som com seis metros de altura. Alguns segundos em frente a esse muro falante são suficientes para fazer tremer todos os seus órgãos internos. A sensação é de que vc será arremessado para longe a qualquer novo acorde ou batida mais grave. Alguns casais gostam de dançar só ali, e rodopiam enquanto seu corpo treme com a musica. Experimentam algo parecido com o que sentem pilotos de caça que quebram a barreira do som e desafiam a força G. É o ponto alto de adrenalina para aquelas pessoas, que esperam a semana toda para isso. A felicidade está estampada nos sorrisos que dançam.
O DJ anuncia o vôo da águia. A musica muda e a cabine de onde ele comanda o som é erguida por braços hidráulicos enquanto solta fogo, fumaça e bolas de sabão por todos os lados. As luzes piscam freneticamente e o DJ se levanta para receber os aplausos do publico que vibra com aquele show pirotécnico. Me lembrei do Show da Xuxa, quando ela descia de um disco voador no meio do cenário. É quase um orgásmo cósmico para os presentes.
Depois do êxtase, o suspiro. A musica se acalma e as pessoas começam a voltar para casa. Amanhã é dia útil. De alma mais leve, quem tem emprego vai correr atrás do seu, e quem não tem só vai pensar na próxima refeição. Eu mesmo vou embora feliz, pensando em como é rica e bonita a cultura periférica desse pais que a maioria faz questão de não ver.




Quando eu era moleque eu vi uma foto que me deixou eletrizado. Era um moleque surfando um trem no Rio de Janeiro. Era 1988, eu tinha 12 anos, a revista era a Trip, a foto era do Marcos Prado e a matéria assinada por Fernando Costa Netto. Aquilo tudo era muito foda!
Depois vi a mesma foto na capa da revista italiana Colors, apresentando ao mundo os surfistas de trem do Ramal Japeri.
Nunca mais aquela imagem me saiu da cabeça, e de alguma maneira ela me ajudou a escolher minha profissão.
Vinte e um anos depois, eu conheci o William enquanto filmava o documentário “Pixo” e ele rapidamente se transformou em um dos principais personagens do filme. Não era pra menos:
Tem dezenove anos, nasceu no Morro da Providência, no Rio de Janeiro e veio bebê pra São Paulo. Estudou até a oitava série mas continua sem saber ler nem escrever. Pixador, escala prédios enormes por fora e deixa sua marca no topo deles. Tem um filho de 9 meses e é casado. A mãe morreu recentemente. Já vendeu droga e descarregou caminhões pra ganhar um troco. Fuma um baseado atrás do outro e parece não ter medo de nada.
Só isso já faria dele um personagem foda, mas quando soube que ele também surfava trens, tremi na base. A possibilidade de fazer uma foto como aquela de 1988 me deixou maluco.
Pedi pra que ele me convidasse na próxima vez em que fosse surfar e esperei ansioso até que o telefone tocasse. Quando isso aconteceu, chamei o Lino Bochini para acompanhar a gravação. Queria fazer uma matéria de surf no trem pra Trip.
Fomos pra Osasco e encontramos nosso big rider. Wiliam vestia uma camisa do Flamengo e parecia confiante pra arriscar a vida em cima dos vagões. Esperamos sobre um viaduto e minutos depois vi de longe ele vindo sobre o trem.
Senti algo diferente quando fiz aquela foto. Era como se eu estivesse virando um fotógrafo de verdade ali, naquela hora. Foi como passar de fase em no vídeo game. Parecia que eu havia completando finalmente o ciclo que começara em 1988, no dia em que aquela Trip acidentalmente foi parar nas minhas mãos.

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