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IGNORÂNCIA E CONTRASSENSO

Folha de S.Paulo (Tendências e Debates) 01.2017

 

Acredito que as medidas do prefeito João Dória em relação a arte de rua como a criação do “grafitódromo” e a pintura dos grafites da Av. 23 de Maio não foram tomadas por má fé, mas por ignorância em relação a uma cultura de rua que é fortíssima na cidade de São Paulo e reconhecida no mundo todo.

O prefeito, como quase todo filho da aristocracia, cresceu em uma bolha vendo a rua como um mero espaço de deslocamento, sempre de carro, entre sua casa e os lugares de seu interesse e não como um espaço de convivência, descoberta e sociabilidade. Esse lapso de formação típico dos filhos da elite paulistana fez com que ele desenvolvesse conceitos distorcidos que podem ser inofensivos para uma pessoa comum mas desastrosos quando esse cidadão chega a prefeitura da cidade.

É consenso entre os urbanistas que uma cidade segura é aquela que tem as ruas ocupadas por pessoas, fortalecendo o senso de comunidade. Recomendo ao prefeito a leitura de “Vida e Morte das Grandes Cidades” de Jane Jacobs para que entenda que cercadinhos como o “grafitódromo” e a Virada Cultural em Interlagos estimulam a “shoppingcenterização” da cidade e fazem com que as ruas fiquem cada vez mais vazias e inseguras, matando aos poucos a cidade.

O prefeito  precisa entender que a essência do grafite e da pichação está na ilegalidade. Para que um desenho no muro possa ser chamado de grafite o artista tem que escolher o muro que quiser e fazer o desenho que bem entender, correndo o risco de ser pego pela policia e submetido ao rigor da lei. Faz parte do jogo. Quando o grafite é aceito pela sociedade, transforma-se em um outro tipo de arte, não menos valioso, mas diferente. A palavra “Grafitódromo” é por si um contrassenso pois quando um artista recebe autorização e cachê para pintar, ele passa a ter um cliente e não pode fazer o que lhe der na telha. O grafite em sua essência não pode ser regulado pelo poder público.

Outro erro do prefeito está na confusão entre o combate ao que ele considera grafite e a pichação. Quando o grafite foi aceito e domesticado pela sociedade a pichação herdou seu espaço contestador. Pichadores buscam sempre o enfrentamento com o poder publico. Declarar guerra à a pichação de forma midiática pode trazer votos mas é tudo o que os pichadores mais querem e terá um efeito devastador para a cidade pois a reação será fortíssima.

A pichação é um crime e deve ser combatida, mas é também uma forma de comunicação sofisticada, criada para que seus autores se comuniquem com seus pares e ao mesmo tempo agridam a sociedade que os oprime. Vejo nas pichações a mais perfeita tradução estética de São Paulo, um reflexo de seu caos arquitetônico, dos emaranhados de fios, do egoísmo e da vaidade que imperam na cidade.

Ao pichar, jovens periféricos que são invisíveis à sociedade provocam o ódio e passam a ser notados. É melhor ser odiado do que ignorado e quando o prefeito da cidade te odeia, ele reconhece que você existe e não há prazer maior do que esse para os pichadores.

Em Nova York, no final dos anos 70 quando o grafite surgiu como um braço do movimento hip hop os índices de criminalidade eram altíssimos e a policia tinha assuntos mais sérios a resolver. Só após a gestão Giuliani, quando criminalidade caiu, a policia pode combater de forma efetiva crimes menores como o grafite. São Paulo esta hoje no mesmo estágio de Nova York nos anos 80 e só vai ser capaz de enfrentar a pichação de verdade quando resolver uma série de problemas gravíssimos que devem ser prioritários. Pichação se resolve com escola de qualidade e não com tinta cinza e bravatas na televisão.

 

RONDA

(Tranca Rua)

Para algumas pessoas o dia começa a meia-noite. Policiais, médicos, taxistas, bombeiros, enfermeiros, socorristas, porteiros, motoristas de ônibus, cobradores, guardas noturnos e alguns de nós, jornalistas.

Esta madrugada pude acompanhar a ronda da madrugada no jornal Notícias Populares. São 6 horas da manhã e as imagens de corpos estendidos no chão, assaltantes algemados, PMs cansados, revólveres engatilhados, mães chorando, irmãos desesperados, o mau-humor dos delegados e o desdém dos escrivãos das delegacias com as vítimas de pequenos delitos.

Os jornalistas que cobrem a madrugada diariamente garantem que esta foi comum, sem grandes acontecimentos. Eles voltam para casa, dormem, acordam e recomeçam ao meio-dia sem pensar muito no que aconteceu. A madrugada em SP é eletrizante do começo ao fim.

Saímos da redação à meia-noite já com a informação de que havia um morto no Jardim Santa Lúcia, zona sul da cidade, corpo no local. Uma pequena viagem nos leva até uma rua sem movimento onde avista-se apenas um toldo, uma luz e um corpo estendido no chão. Mais de perto observamos a viatura da PM que guarda o o cadáver enquanto o IML não chega. Repórter e fotógrafo se identificam ao policial com a frieza e a naturalidade de quem faz isso a anos, entregam uma edição recém impressa do jornal como se fosse um passaporte para começar a trabalhar e fazem as perguntas de sempre.

O PM conta que fazia ronda no local, viu os “elementos” bebendo no “Bar da Mina” e pensou em abordá-los para averiguação. Desistiu, continuou a ronda e alguns minutos depois foi mandado de volta ao local.

“Na hora que eu voltei reconheci o cara pela bermuda que ele vestia. Não sei não mas eu tenho quase certeza de que era “mala” (bandido, na gíria policial)” disse o PM.

Proximo ao corpo estava apenas a dona do bar, e o enteado da vítima. O rapaz, que não quis revelar o nome chorava enquanto a mulher apenas observava a cena resignada e com jeito de quem já viu isso antes.

O fotógrafo pede autorização para fazer uma foto do morto, a autorização é dada pelo policial, ele tira o pano que cobria o corpo e começa a clicar.

A cena é assustadora. O sangue escorre pela boca, e por trás da cabeça, o rosto está levemente desfigurado, talvez em decorrência dos tiros na cara, e todos em volta, com exeção do enteado do morto agem com uma naturalidade desconcertante.

O nome da vítima é Laércio Dias da Silva,  tem 28 anos e é caminhoneiro. A dona do bar diz que não viu nada, pois havia se agachado para pegar uma cerveja no freezer e quando se levantou o rapaz já havia morrido. Os profissionais da madrugada se entreolham e fazem de conta acreditar na história da mulher. É a lei da favela, não há nada que se possa fazer.

O celular toca na cena do crime, a voz do outro lado da linha avisa a equipe de que ladrões foram presos em flagrante tentando assaltar o laboratório Fleury de Análises Clínicas na rua Cincinato Braga. Todos se despedem, entram no carro e partem para próxima ocorrência sem trocar muitas palavras pelo caminho.

De volta ao centro, direto para o 5º DP. Cinco PMs conversam sorridentes na porta da delegacia. Um deles toma a frente e se apresenta como o autor da prisão. “Os malas estão lá dentro, troquem uma idéia com o “doutor” e podem fotografar.

Em poucos minutos chegam jornalistas de todas as empresas: Dipo, Agora, Record, Globo, Band, CBN e etc. A delegacia mais parece uma daquelas festas de jornalistas. Enquanto os jornalistas se divertem, não param de entrar pessoas prestando queixas de roubos de toca fitas, acidentes de trânsito e outros pequenos crimes, anotados com certo desdém pelas escrivãs mau-humoradas.

Os autores do roubo ao laboratório são apresentados, fotografados e entrevistados. Mais um serviço feito, todos se despedem dos PMs sorridentes e voltam para seus carros de reportagem. Talvez eles ainda se encontrem naquela mesma noite.

Nosso repórter dá alguns telefonemas para algumas delegacias, checa algumas informações, entra no carro e diz: “Vamos tomar um café.”

Não é preciso perguntar aonde será servido este café, quem trabalha na madrugada sabe que o ponto de parada fica no bar “Estadão”, proximo ao viaduto Maria Paula, em frente ao prédio do Diário Popular (ex Estado de S.Paulo). É lá que se encontram todos aqueles seres que trabalham a noite e se misturam com bêbados, prostitutas, travestis e várias outras espécies de malucas que habitam a noite do centro.

Café tomado, nenhuma novidade, o destino natural é a redação. Noite tranquila, ocorrências simples. Hora de ir embora?

Negativo. O celular toca mais uma vez. Dois homens baleados, um deles ainda está vivo, foi socorrido e levado ao PS em estado grave, o outro morreu na hora, o corpo está no local. A região, para variar é a zona sul mais uma vez, o bairro é o Jardim Santa Cruz e a página do guia de ruas que usamos para nos localizar é a mesma do primeiro homicídio da noite.

No local estava mais uma vez apenas a viatura da PM.

O procedimento é o mesmo, as perguntas também. A vítima era um vigilante, na gíria policial eles são conhecidos como “pirriú” por causa do apito que eles assopram a noite inteira. O nome dele é Pedro Lourenço dos Santos, 48 e foi assassinado quando voltava do velório de um colega, também vigilante que havia morrido na terça-feira.

O IML não costuma chegar muito cedo. Dez ou doze horas de atraso são consideradas comuns na periferia. Provalmente amanhã, quando as crianças acordarem para ir para a escola encontrarão o cadáver ainda ali, mas não se assustarão. É apenas mais um morto, não será o último e a vida para elas vai continuar.

O dia começa a amanhecer no caminho de volta para a redação.

Repórter e fotógrafo se despedem com a calma e a naturalidade de quem vive noites como essa a muito tempo.

Para eles, a noite foi calma, sem sustos. Para mim, não sei, mas acho que alguma coisa mudou.

PUTA É O CARALHO

(Tranca Rua)

O nome verdadeiro é Maria Aparecida da Silva, mas na Central do Brasil é conhecida por Márcia. Aos 42, trabalha como faxineira de manhã em uma firma e prostituta a tarde, em frente a estação de trem mais movimentada do Rio de Janeiro.

Era gostosa, mas depois de tantos anos trabalhando como puta já não é mais. Assim mesmo ainda tem seus clientes fiéis, que não dispensam uma foda “completa” por R$35,00 depois de um dia de trabalho pesado. Como não é mais jovem, quem chegar com R$ 15,00 leva. São pedreiros, pintores, taxistas, eletricistas, porteiros. Usam o corpo de Márcia pra aliviar as tensões do cotidiano embaçado que gente pobre tem.

Cida mora em Itaguaí, zona norte do Rio, a 70 km do seu local de trabalho. De busão são quase duas horas. 
A casa é simples, quarto e sala sem acabamento, tijolo baiano a vista, chão de terra e cimento, móveis improvisados, cortinas ao invés de portas e um retrato de Jesus na parede.

Um pedaço de bombril na antena ajuda a diminuir o chiado do capitulo de Malhação que as crianças assistem na televisão pequena sobre o armário. Como toda casa pobre, falta tudo mas sobra dignidade. Café, bolacha de maizena e Dolly sobre a mesa pra receber os convidados.

Mora ali com seus filhos, André, 18, Camila, 22, seus netos Wesley,5, Ketheleen,3, a mãe alcoólatra Idalina e a filha adotiva deficiente mental Verinha.

Cida sustenta a casa sozinha. Não fosse o dinheiro dos programas, provavelmente o filho estaria no crime, a filha na prostituição, a mãe alcoólatra pela rua gritando absurdos abraçada a uma garrafa de pinga e só Deus sabe onde estariam os netos e a filha adotiva deficiente mental.

Puta é o caralho, Cida é uma guerreira. Foi para o sacrifício e manteve na unha vermelha a família unida. Foi capaz de perder sua dignidade pra preservar a dos seus. Quem seria capaz disso? Você seria?

Ao conhecer essa mulher, tive a certeza absoluta de que as mulheres são superiores aos homens.

Pensei nos defensores da moral e bons costumes dos programas vespertinos de TV, nos hipócritas que bradam absurdos nos palanques, no horário eleitoral gratuito, no Datena, no Faustão, nas rádios populares. Sinto o gosto de vômito na garganta. Quem é mais puta? Quem é mais desonesto? Quem é o verdadeiro filho da puta?

Com olhar forte e digno, Cida tem a cabeça erguida e a hombridade de quem sabe que cumpre o seu dever com rara honestidade. Quem hoje em dia pode dormir tranqüilo assim?

O PUDIM

(Tranca Rua)

Foi preso por um crime passional. Matou a mulher e o amante quando flagrou-os trepando em sua própria cama. Condenado a 15 anos de cadeia, foi direto para o Carandiru, sem escalas.

Sempre teve bom comportamento, não dava trabalho para os funcionários e todos os presos do pavilhão 7, onde morava, gostavam dele. Tinha nome, mas ninguém nunca soube qual era. Todo mundo o conhecia mesmo por Pudim, devido a sua maior especialidade na cozinha.

Realmente, o pudim que ele fazia era diferente. Derretia na boca, tinha um gosto adocicado que despertava em todos lembranças da infância. Ninguém passava batido àquele pudim. Dentro de uma cadeia horrível, aquilo era um manjar dos deuses. Todos os dias, depois das refeições aquele doce maravilhoso era disputado a tapa por ladrões, traficantes, homicidas e estelionatários.

Não demorou muito tempo para que os diretores da cadeia descobrissem aquela maravilha da culinária que era feita no terceiro andar do pavilhão 7. Em pouco tempo, Pudim foi trabalhar no setor administrativo da cadeia. Fazia pudim para funcionários, policiais, diretores e visitantes.

Rapidamente seu prato ganhou fama e virou lenda no sistema penitenciário.

Graças a seu bom comportamento, Pudim tinha trânsito livre na cadeia, e isso foi muito importante quando se envolveu num plano de fuga com outros detentos. Ele conhecia os horários, os caminhos, e foi aprendendo aos poucos os pontos fracos da Detenção. Ele e mais 24 detentos escaparam por um túnel cavado perto do muro do pavilhão 2 e nunca mais foram vistos.

Os diretores, funcionários e policiais ficaram putos com aquela fuga, mas o que realmente lamentaram foi perder o já tradicional pudim de depois do almoço. Aquilo foi como um tiro no estomago de cada um deles.

Nessa época, o diretor da cadeia era o Luizão, um policial implacável que tinha o hábito de desafiar os bandidos mais perigosos para lutar boxe no “mano a mano”. Exímio boxeador, ele conhecia seu potencial e vencia a todos os seus oponentes, que desmoralizados por apanhar do diretor na frente de toda a bandidagem, nunca mais davam trabalho na cadeia.

Luizão não gostava de fazer só trabalhos administrativos e as vezes participava de operações na rua.

Certa vez, foi comandar um grupo de policiais numa operação para prender traficantes de drogas na fronteira do Brasil com o Paraguai. Era um trabalho difícil, e foram vários dias de campana na selva esperando que os bandidos aparecessem.

Depois de muita espera, cansados, sujos e com fome, desistiram e foram até a cidade mais próxima em busca de um lugar para comer. Chegaram em Fátima do Sul, cidade de três mil habitantes, que tem apenas uma rua asfaltada.

Procuraram a única churrascaria do local e comeram como reis após tanto tempo no mato.

Depois da fome saciada, chamaram o garçom e pediram a conta. O garçom, muito simpático, disse que antes de sair eles não poderiam deixar de experimentar a sobremesa que era a maior especialidade da casa. Foi até a cozinha, voltou com um enorme prato de pudim e serviu a todos os policiais da mesa.

Quando sentiu aquele cheiro, Luizão começou a desconfiar. Deu a primeira colherada pra ter certeza. Aquela massa doce desceu tão macia em sua garganta que não haviam mais dúvidas. Pós a mão no coldre da pistola e chamou o garçom: “Isso está uma delícia, traga aqui o cozinheiro porque eu gostaria muito de cumprimentá-lo por essa maravilha de pudim”.

O cozinheiro saiu da cozinha, preparado para receber os elogios aos quais estava tão acostumado e não esboçou reação ao ver aqueles quinze policiais liderados por Luizão apontando armas em sua direção. Era ele mesmo, o Pudim do Carandiru, que estava foragido a dois anos, escondido em Fátima do Sul com a certeza de que jamais seria encontrado.

Desolado por tanto azar, Pudim voltou para cadeia graças ao que fazia de melhor. Dizem que depois disso, o pudim que ele fazia nunca mais foi o mesmo.

CAMISA 5

(Tranca Rua)

Toda segunda-feira no Carandiru era dia de acerto de contas. Quanto mais longe do final de semana melhor para resolver as tretas pendentes na cadeia. É que fim de semana tinha visita e quando ladrão fazia merda na véspera, a entrada dos parentes e amigos era suspensa no ato. Quando a merda acontecia na segunda, dava tempo da direção esquecer até chegar o sábado. Essa era a rotina da maior cadeia que já existiu na América Latina, abrigando em sua lotação máxima 8 mil presos.

Aquela segunda, alem de ser o dia de acerto de contas era dia de clássico no campo do pavilhão 8 e só se falava sobre isso na Detenção. Dois times tradicionais duelavam pela final do campeonato organizado pela FIFA (Federação Interna de Futebol Amador), na época presidida por meu amigo Monarca, um dos presos mais antigos e respeitados do Carandiru. Todos os olhos da cadeia estavam voltados para aqueles 22 jogadores. Na beira do campo, momentos antes de começar o jogo, uma roda de samba animava a bandidagem regada a Maria-louca e muita maconha. Senti falta da câmera de vídeo quando os presos cantaram “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.

Na condição de visita, logo consegui um lugar no banco, atrás da linha de fundo.

Ao meu lado, sentou o Paraíba, um negro alto, magro e de bigode farto com quem eu sempre conversava bastante. Era um típico “cabra-da-peste”. Dizia que nunca roubou, não gostava e nem tinha talento para isso. “Só de pensar em roubar alguém minha mão começa a tremer. Não acho certo. Meu negócio sempre foi mesmo matar. Acho que nasci pra isso. Odeio ladrão” dizia com uma naturalidade estonteante.

O jogo seguia equilibrado, com muitas faltas e poucos gols. No meio do segundo tempo, Paraíba me cutucou e disse: “Ta vendo aquele cara ali, o camisa 5? Vai morrer hoje a noite”. Levei um susto, engoli seco, controlei os nervos e perguntei despretensiosamente, fazendo de conta que tinha ouvido algo normal, o por que do assassinato? “Treta de cadeia, já tá condenado mas ainda não sabe” disse sem dar mais detalhes.

Não consegui dizer nada. Parei de fotografar e perguntar pra ficar olhando o cidadão com a camisa 5 que corria dentro do campo. Era a primeira vez que via um morto jogar bola. Muitos outros ali já sabiam que aquela noite haveria sangue.

Homicídio no Carandiru era um acontecimento. Havia um julgamento e depois da sentença, o cara que ia morrer era colocado ainda vivo em uma cela e esperava igual a um porco no matadouro a hora da morte. Não adiantava gritar. Diziam que a maioria ficava em silencio. Um preso da faxina chegava com água, sabão, balde e rodo e deixava ao lado da cela. Assim que levava a primeira estocada, o sangue jorrava e começavam a limpeza. Vagabundo não gosta de sujeira na cadeia. Quando parava de se debater, o morto era puxado pelos pés e levado para a porta do pavilhão. O rastro de sangue que ficava era limpo na hora pelos responsáveis pela limpeza. Na hora de descer a escada, o barulho seco da cabeça desfalecida batendo nos degraus era ouvido de longe no silencio cortante do pavilhão.

No dia seguinte, algum preso endividado ou com uma pena centenária assumia o crime. Algumas vezes mais de dez assumiam a morte. Na lei, quando mais de dez matam na cadeia fica caracterizado motim, e ai ninguém é punido. 
Sentado ali na beira do campo assistia ao morto vivo jogar bola. Imaginava cada etapa do assassinato. Pensava no que fazer com aquela informação. Gritar, avisar o cara, a direção do presídio, a policia? Meu cérebro entrou em parafuso e não fiz nada. Fui embora como se não soubesse daquilo. Nada do que eu fizesse mudaria o destino que se desenhava para aquele camisa 5. Conheço bem o parágrafo primeiro na lei da favela. Boca fechada sempre. Não sou louco de desrespeitar, mas não dormi direito aquela noite. Toda a seriedade que falta na justiça brasileira sobrava no Carandiru. A lei da cadeia é cruel e implacável, não existe apelação nem Supremo Tribunal Federal. Ao contrário da rua, as sentenças eram invariavelmente cumpridas na cadeia.

No dia seguinte voltei pra Detenção e na portaria me informaram que não poderia entrar pois houvera um homicídio na noite anterior. Sentei na calçada e lembrei daquele camisa 5 correndo atrás da bola. Não o conhecia, não sabia seu nome, porque estava preso nem a quantos anos foi condenado. Não quis saber. Sabia apenas que aprontou alguma e foi punido. Aquele volante raçudo era bom de bola e peça importante no time, tanto que esperaram o campeonato acabar pra manda-lo embora pro inferno.

MORCEGÓVIA

(Tranca Rua)

Já passou de uma da manhã. É madrugada e morcegos voam baixo pelas ruas quase vazias de Morcegóvia. Agora não tem mais trânsito, não tem mais pressa e a nóia do dia se transformou na loucura dos que preferem a contra-mão da cidade.

Nas cavernas alguns aproveitam o silencio pra pensar, criar e botar ordem no cérebro enquanto as ruas são tomadas pelos exus que se divertem surfando limites entre o bem e o mal.

Morcegovia não é Hollywood e é agora que ratos e baratas saem dos ralos pra andar de mãos dadas sem o risco de serem pisoteados pelos que correm cegos durante o dia.

No boteco mais clássico, sanduíches de pernil são servidos sem pausa pra todo tipo de trabalhador noturno. Putas, traficantes, policiais, travestis, taxistas e toda a fauna se encontram no balcão mais democrático da cidade.

Nas cadeias, depois da tranca, ladrões e homicidas deitam a cabeça no colchonete fino e úmido do barraco e constroem seus castelos de liberdade.

Carros e motos aceleram forte e sirenes ecoam lá longe a trilha sonora da madrugada. Em algum lugar alguém precisa de ajuda.

Enquanto energias se concentram e se dissipam, conexões são feitas por torpedos de celular. A inteligência seduz mais que um par de tetas e a cidade entra na ebulição gelada da noite morcega. Morcegóvios clareiam quando escurece. Um maço de cigarro e uma coca-cola te empurram pra rua as três da manhã e te deixam levemente mais feliz.

Nas favelas o dia começa antes da noite acabar. Ônibus cheios já sobem e descem a Estrada das Lágrimas enquanto boates ainda fervem sob efeito de balas na lingua.

Na “Casa de Todas as Casas” meninas continuam chegando a procura de um programa que lhes pague o táxi da volta pra casa. Viciados dão cavalo-de-pau com a boca e ainda procuram mais um papelote de farinha na vã tentativa de prorrogar o improrrogável.

O relógio da avenida central parece andar em câmera lenta. O negro do céu dá lugar ao azul escuro que precede a manhã. O movimento aumenta devagar. O dia vem.

Morcegos voltam aos poucos pra caverna. Durante o dia se disfarçam de pessoas normais e trabalham.

O MALOTE

(Revista S/N)

O trânsito de São Paulo é uma selva. Tem motoboy arrancando retrovisor, ladrão roubando bolsa, moleque fazendo malabarismo, sirene tocando, alarme de carro, fumaça, caminhão e ônibus.

No meio desse caos, circulam pequenas fortalezas blindadas sobre rodas. Com quatro caras dentro, armados de escopeta e revólver, esses bunkers móveis carregam para cima e para baixo dentro de malotes, uma boa parte da riqueza nacional.

O dinheiro que você tem na carteira, com certeza já passeou centenas de vezes em um carro-forte dentro dos milhares de malotes que circulam todos os dias pelo país. São bancos, farmácias, postos de gasolina, padarias e motéis, que despacham os ganhos do dia dentro dessas sacolinhas cobiçadas.

Passei um dia acompanhando alguns malotes sob custódia da Brinks, a mais antiga companhia de transporte de valores do mundo, que começou suas atividades em 1854, nos Estados Unidos, transportando de carruagem o dinheiro produzido no velho oeste americano.

O carro por dentro é simples. Paredes grossas, portas pesadas, quatro cadeiras, um cofre e um monte de buracos espalhados pra meter bala nos bandidos que tentarem pará-los. Nas paredes, instruções afixadas indicam o que fazer em caso de assalto enquanto uma imagem de Nossa Senhora presa com um imã em uma das colunas tenta evitar que isso aconteça.

Naquela manhã, ao entrar no carro o motorista fez o sinal da cruz e, conscientemente ou não, pisou na cabine primeiro com o pé direito. Os outros três ocupantes tomaram seus assentos e o carro partiu para a batalha.

Num país cheio de desigualde social, eles vão atravessar uma cidade violenta em um carro cheio de dinheiro.

Cada parada é um momento de tensão.Desce o primeiro de arma em punho, só pra ver se o caminho está limpo. Faz um sinal de positivo e só então os outros dois podem descer. O motorista, pega a escopeta e fica de prontidão trancado dentro do carro.

É hora de almoço no centro e a rua está cheia. São velhos, mulheres, homens e crianças. Na banca do camelô, um rádio velho toca “Homem na Estrada” dos Racionais. Cada um é um suspeito em potencial. Aquele mendigo pode ter uma Uzi embaixo do cobertor, a mulher com a criança pode ter uma granada na bolsa, o gari um fuzil na lixeira. Como saber?

Alguns guardas despreparados já atiraram por engano. A tensão e o medo predominam na cena.

Eles pegam o malote na agência bancária e rapidamente voltam pra dentro do carro, que arranca para fazer a próxima coleta.

Depois de passar por vários lugares recolhendo os malotes, o blindado segue para o verdadeiro bunker: a central da empresa de segurança, onde o dinheiro vai ser contado e catalogado. Aquilo sim parece a caixa-forte do tio Patinhas. Lá tem mais concreto, grade, aço, camera e tensão do que qualquer cadeia do país.

Não é pra menos. Em uma das salas centrais, os malotes são abertos e maços e mais maços de dinheiro são jogados sobre uma mesa de fórmica branca. Uma funcionária vestindo um macacão de operário e um 38 na cintura amontoa e organiza todo aquele dinheiro que é contado, recontado e depois empacotado em novos maços com mil notas cada um.

A trilha sonora, vem de uma máquina de contar moedas que faz um barulho igual ao de um caça-níqueis dando lucro.

Por um instante, quis ser John Malkovich e entrar no cerébro daquela funcionária, só pra saber o que pensa alguém que passa o dia inteiro manuseando milhões de reais e no fim do dia pega um ônibus lotado pra ir embora pra casa.

Na entrada da empresa, estão penduradas fotos de criminosos foragidos e balanços dos assaltos ocorridos no ano corrente em todo o Brasil. Além da contagem, os relatórios também trazem detalhes de cada assalto, para que os funcionários fiquem atentos e nunca esqueçam o perigo real que correm.

A tensão é justificavel.

Na guerra urbana de São Paulo, todo mundo quer dinheiro e os carros-forte transportam o dinheiro que todo mundo quer.

Muitos morreram tentando roubar o malote, alguns conseguiram. Outros morreram tentando defender o malote.

Essa é só mais uma das tantas guerras pelo dinheiro que são travadas todos os dias sobre o asfalto quente da cidade de São Paulo.

COTIDIANO

(Tranca Rua)

Depois de dez anos fazendo jornalismo diário na Folha de S.Paulo, aprendi a discordar do Morpheus, do filme Matrix, quando ele diz que deja-vu é só uma falha no sistema. Todo ano é igual. Vai vendo:

Sempre começa com uma grande tragédia nos primeiros dias. Pode ser um tsunami que varre do mapa países ásiaticos, um Bateau Mouche que afunda, um ator de novela que mata a atriz, boate que pega fogo ou um avião que cai. 
O importante é que seja merda suficiente pra encher jornal até chegarem as as enchentes, dois meses depois, provocando caos na cidade, deixando bairros embaixo d’agua, carros boiando e transito insuportável enquanto a cara gorda do Datena desfila toda a sua indignação de butique na TV.

A água ainda nem secou e começa o carnaval, com as mesmas bundas, os mesmos comentários, enredos e cores do ano passado. No outro canal as quase mesmas musicas baianas de sempre se infiltram feito um espião britânico no interior até do mais resguardado de todos os cérebros.

Finda o carnaval e Brasília volta a pauta porque a folia dos políticos só começa quando a do povo acaba. Aos poucos os absurdos que nos acostumamos a ouvir de nossos engravatados governantes lentamente vão tomando conta dos nossos anestesiados ouvidos.

Abril tem que pagar imposto de renda. Hora do governo encher o cofrinho e juntar dinheiro pra esbórnia federal.

Logo em seguida, as quaresmeiras do bairro da Liberdade ficam tomadas por flores roxas que, ao lado das cores dos grafites de Osgemeos, Nina e Nunca, te fazem respirar um pouco e deixam menos triste o cinza chumbo da 23 de maio.

O ano tá no meio, tem neve e geada em São Joaquim e agora é a vez do esporte. Copa do Mundo, Pan-Americano, Olimpíada ou o que seja. Cento e oitenta milhões em ação param tudo porque o verde e amarelo tá em campo. É a voz do Galvão novamente reverberando em nossa já desgastada caixa craniana.

Ressaca do esporte e ninguém tem tempo de respirar. Agora só se fala em eleição. As faixas e cartazes com a cara de bunda dos candidatos a qualquer coisa estão por todos os lados. A cidade vive sua primavera às avessas e passa pelo período mais feio do ano. Papel no chão, muro pintado, palanques oportunistas, troca de acusações, debates ensaiados. É a vez do horário eleitoral gratuito espalhar a mentira pelos quatro cantos do pais.

Político eleito, Big Brother decidido, é sinal que o ano quase acabou. O cansaço se vê na expressão das pessoas que andam rápido pela avenida Paulista. Ainda dá tempo pra ouvir o William Bonner dizer no JN que o lucro dos bancos triplicou e que o Bradesco e o Itaú bateram recordes de faturamento igualzinho ao ano passado.

O povo tá abrindo o bico, mas a perspectiva do Natal feliz faz com que resistam. Desta vez são os comerciais natalinos da TV que animam com sininhos tocando, gargalhadas falsas e gente ganhando dinheiro pra parecer alegre.

O espírito de Papai Noel penetra em todo mundo, menos na policia, que todo dia desce a porrada nos camelôs da 25 de março. Tropa de Choque, muita bomba de gás, borrachada e mercadoria apreendida. Camelô é pobre e não tem dinheiro para pagar propina como os coreanos do Promocenter.

A medida em que o calor começa a ficar insuportável, o clima fica mais tenso. Perto das “festas” o número de homicídios aumenta. Dia sim dia não tem nova chacina na quebrada.

As cadeias começam a ferver e está aberta a temporada das rebeliões. Ladrão faz castelo e sonha em passar o ano novo fumando um em Praia Grande. Já que não dá, só resta quebrar tudo mesmo.

Depois do Natal, todo mundo que não tá preso vai pra praia ao mesmo tempo. O trânsito entope as 15 pistas da Imigrantes enquanto os helicópteros das TVs quase batem um no outro procurando os melhores ângulos pra mostrar como paulista é burro.

As praias ficam tão lotadas que o calor que queima vem do suor do vizinho e não do sol. Toneladas de celulite com latinhas de cerveja na mão desfilam sua felicidade sobre a areia e seguem a risca o script do cidadão mediano.

As redações dão folga pra meia equipe e as matérias de gaveta inundam o noticiário.

O reveillon chegou e é hora de encher a cara. No DNA humano deve estar escrito pra beber dia 31.

Milhões vão pras ruas e ficam alegres. Dão abraços falsos uns nos outros, molhados pela chuva que sempre cai na noite da virada, borrando a maquiagem das mulheres em Copacabana e deixando transparentes as roupas brancas que deveriam trazer sorte.

Nos apartamentos, os solitários assistem a contagem regressiva gravada um mês antes pelo Faustão. Provavelmente a Ivete Sangalo ou o Zezé di Camargo vão cantar enquanto os fogos pipocam na tela.

O bar Estadão, continua aberto e servindo sanduíche de pernil igual a todos os outros dias do ano. Na Major Sertório, travecos e putas disputam os poucos clientes que sobraram na cidade. Tiozinhos solitários em última instância.

Dia 1 de janeiro, pela manhã não tem ninguém na rua. São Paulo parece uma cidade fantasma. Na avenida São João passa um ônibus vazio a cada meia hora. “Nóias” e cães dormem tranquilos na rua deserta. Na redação da Folha, quatro gatos pingados fazem o plantão de ano novo enquanto seus chefes viajam com as famílias. Logo mais vai acontecer alguma tragédia, afinal de contas o ano já começou e todo ano é igual.

NAVIO NEGREIRO

(Tranca Rua)

Tô na rua. Escuto as sirenes dos carros de policia e o barulho do helicóptero do Datena que voa rasante sobre o centro de São Paulo. Viro a esquerda na rua do Triunfo e vejo entre as viaturas uma fileira de homens sentados, virados para a parede e com as mãos algemadas na cabeça. São todos negros.

Policiais civis do GOE, do GATE e de outros grupos especiais que usam roupas pretas e armas grandes fazem o cerco. São todos brancos.

Os negros são levados em fila indiana para dentro de um ônibus. Um ônibus cheio de negros sendo levados algemados por policiais fortes, brancos e armados até os dentes. A cena é a do navio negreiro.

Chego mais perto. São todos africanos. Nigerianos moradores do centro de SP. Ninguém pede documento, nem pergunta, nem nada. É preto, é africano, vai pro ônibus.

Alguns negros reclamam. Um se exalta. Um policial branco e gordo, armado com uma pistola, entra no ônibus e dispara continuamente um spray de gás pimenta. Fecha a porta e deixa os negros gritarem com os olhos em brasa e a garganta fechada. Alguns policiais brancos dão risada do lado de fora. Um negro desesperado por não poder respirar chuta a porta do ônibus e consegue escapar. É espancado por cinco ou seis policiais brancos que de tão entretidos com a agressão não percebem o fotógrafo que registra tudo de perto.

São muitos policiais mas não há espaço para todos baterem. Um dos que não conseguiram agredir o negro percebe a câmera e agride o fotografo. Mas o fotografo é branco e trabalha no maior jornal do pais. Leva só um tapa nas costas, alguns empurrões e é impedido de fotografar o negro, que já algemado continua sendo chutado.

Arregaçado de tanta porrada, o negro é posto de volta no ônibus, que segue viagem até o 3DP, na rua Aurora. Foram todos averiguados e soltos no mesmo dia. Era apenas mais uma operação padrão da policia de São Paulo.

 

 

 

A Carne

(Seu Jorge, Marcelo Yuca, Wilson Capellette)

 

A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que vai de graça pro presídio

E para debaixo de plástico

Que vai de graça pro subemprego

E pros hospitais psiquiátricos

A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que fez e faz história

Segurando esse país no braço

O cabra aqui não se sente revoltado

Porque o revólver já está engatilhado

E o vingador é lento

Mas muito bem intencionado

E esse país

Vai deixando todo mundo preto

E o cabelo esticado

Mas mesmo assim

Ainda guardo o direito

De algum antepassado da cor

Brigar sutilmente por respeito

Brigar bravamente por respeito

Brigar por justiça e por respeito

De algum antepassado da cor

Brigar, brigar, brigar

A carne mais barata do mercado é a carne negra

 

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